VOCÊ REALMENTE SABE?

Você realmente sabe?

Você realmente entende?

Você ri ou se revolta porque enxerga a verdade, ou porque o seu viés de confirmação foi acariciado?

Ainda está aqui o Brasil de Lima Barreto.

“O Brasil não tem povo, tem público. Povo luta por seus direitos; público só assiste de camarote.”

O camarote mudou de lugar: agora é digital.

A plateia se chama feed.

A cortina é o algoritmo que decide o que você vê, o que você acredita, o que você repete.

E, entre uma curtida e outra, o país sangra.

Na mesma manhã em que mães enterram filhos, alguém posta uma foto de café, flores e bilhetes poéticos.

Na legenda, o absurdo travestido de sensatez:

“Hoje, o Rio assistiu a quem teve coragem de agir. 👏🏻👏🏻👏🏻. Meus sentimentos aos familiares.”

O tom é de homenagem, mas o sentido é de horror.

O elogio à “coragem de agir” esconde o aplauso ao extermínio.

O café da manhã, bonito na estética, revela o amargo da moral.

Assim, a violência vira eficiência.

A empatia, ruído de fundo.

O Estado que mata nega a Constituição que o sustenta.

A dignidade da pessoa humana é fundamento da República — artigo 1º.

O direito à vida é inviolável — artigo 5º.

A segurança pública é dever do Estado e direito de todos — artigo 144.

Porque, na prática, quando o Estado escolhe quem merece proteção e quem deve sobreviver sozinho, ele traça uma linha invisível entre vidas plenas e vidas toleradas.

E, nesta linha, as pessoas com deficiência não cabem como exceção: cabem como pauta de Estado, como projeto de civilização.

Inclusão não é ornamento social, e isenção não é benevolência fiscal.

Negar direitos à pessoa com deficiência é negar que a Constituição vale para todos.

Não se tributam corpos, limitações ou diagnósticos.

Tributar a deficiência é tributar a existência.

E existência não se taxa: se garante.

A quem teme que a dignidade custe caro, convém lembrar:

o preço da exclusão é sempre maior do que o custo da justiça.

As pessoas com deficiência não pedem concessões.

Exigem cumprimento constitucional.

Exigem o que a Convenção da ONU garantiu, o que a LBI consolidou,

e o que a sociedade ainda hesita em reconhecer:

autonomia não se negocia, inclusão não se adia, retrocesso não se tolera.

Há quem pense que direitos PcD são despesas.

Ignoram que são fundações:

educação acessível, mobilidade garantida, autonomia econômica,

tributação justa, participação política real.

Não somos público esperando políticas.

Somos sujeitos constituindo país.

Se há esperança, ela não está no favor do Estado.

Está na vigilância de quem não aceita ser silenciado.

Está na organização de quem não aceita ser exceção.

Está na luta de quem não pede para entrar: entra.

Enquanto a vida é negociada, a educação tenta resistir.

Professores saltam de escola em escola para completar renda.

Exaustos, mal pagos, desvalorizados, continuam ensinando — porque acreditam que o saber ainda pode transformar.

Mas um aluno reclama: “O professor cobrou na prova os três elementos de formação de um Estado e falou da Inglaterra. Mas eu moro no Brasil! Pra quê isso?”

A pergunta, ainda que revoltada, é um espelho.

Falhamos em mostrar que conhecer o mundo é entender o próprio país;

que estudar a Inglaterra é compreender as origens da ideia de nação;

que sem contexto, sem curiosidade, sem diálogo, o pensamento morre antes de nascer.

Hoje, alunos são capturados antes de aprender.

As redes ensinam a deslizar o dedo, não a formular perguntas.

A inteligência artificial evita o esforço, substitui a reflexão.

E o professor, cansado, tenta competir com o brilho da tela e o ruído do algoritmo.

A educação perdeu prestígio porque o país trocou conhecimento por capital.

Trocamos o saber pelo saldo, o professor pelo influenciador, a escola pelo espetáculo.

Aqui, o respeito é medido pelo saldo bancário, não pela sabedoria.

O sujeito que espalha fake news é mais admirado que o professor que ensina ciência, ética e cidadania.

Enquanto os professores lutam para sobreviver, prefeito comemora “economia” de milhões.

Economizou quanto? De onde?

O que faltou? Merenda? Remédio? Acessibilidade? Transporte? Políticas sociais?

Economizar sobre o que falta não é virtude: é avareza travestida de moralidade.

Política pública não é gasto, é investimento.

E quando se economiza sobre a dor, o preço é a dignidade coletiva.

Nesse mesmo cenário, o Senado aprova a reforma tributária.

Promete simplificação, justiça e modernidade.

Mas sua verdadeira dignidade depende de não abandonar quem mais precisa.

A Câmara deve aprová-la sem retrocessos — preservando as isenções que garantem autonomia às pessoas com deficiência.

Tributar a deficiência é tributar a sobrevivência.

Justiça fiscal sem inclusão é apenas contabilidade.

E, apesar de tudo, há lampejos de esperança.

Em meio ao caos, o Decreto nº 12.686/2025 cria a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva (PNEEI).

É um marco civilizatório: uma rede nacional voltada à formação, à acessibilidade, ao apoio individualizado.

Inclusão não é caridade.

É dever do Estado, princípio constitucional, condição da democracia.

Mas decretos só valem quando saem do papel.

É hora de vigiar, cobrar, fiscalizar, participar.

Nada muda sozinho, nem a lei, nem o país.

E enquanto discutimos se educação é custo, a história continua a ser arrancada do chão.

Ouro, prata, minério, terras raras, silício — o Brasil exporta matéria e importa futuro.

O povo que vive sobre a riqueza continua sem saneamento, sem escola, sem saúde, sem teto.

Exportamos o que há de mais valioso na terra, importamos o que há de mais cruel na lógica.

Exportamos riqueza, importamos ruína.

E, como se não bastasse, ainda querem nos punir por existir.

Os Estados Unidos impõem novo tarifaço, colonialismo com roupa nova.

Taxam o que produzimos, encarecem o que exportamos, desvalorizam o que criamos.

Mas isso não é destino econômico, é escolha política.

Um país com o potencial do Brasil não pode se curvar diante de quem lucra com o que tiramos da terra e depois nos vende de volta com selo estrangeiro.

O que nos falta não é recurso: é vergonha de desperdiçá-lo.

É coragem de regular com justiça, investir com responsabilidade, defender nossa soberania com dignidade.

Sustentabilidade não é só preservar: é distribuir com equidade o que já é nosso.

Explorar a terra é legítimo, saquear não.

A exploração precisa ser sustentável, regulada, transparente, justa.

Os recursos naturais pertencem às futuras gerações.

Uma nação soberana não mede sucesso pelo volume de minério exportado, mas pela capacidade de transformar riqueza em ciência, tecnologia, cultura e dignidade.

A mineração sem controle não gera desenvolvimento, apenas crateras.

O elo esquecido da nossa história é a cadeia produtiva nacional.

Precisamos deixar de ser fornecedores de matéria-prima e nos tornarmos criadores de valor.

Transformar o minério em aço, o aço em tecnologia, o silício em inovação, o conhecimento em cidadania.

Um país que exporta quartzo e importa microchips é um país que abre mão da própria soberania.

A verdadeira riqueza de uma nação está no que ela é capaz de produzir com o que tem e não no quanto consegue vender do que possui.

Isso exige regulação forte, investimento em pesquisa, universidades e tecnologia limpa.

Sem isso, continuaremos sendo colônia — digital, minerária e mental.

Vivemos tempos em que a barbárie se disfarça de coragem, a ignorância se fantasia de opinião, a economia se veste de virtude e o silêncio se chama neutralidade.

Mas neutralidade diante da injustiça é cumplicidade.

A indiferença é o aplauso mais eficiente da opressão.

Então, volto a perguntar:

Você realmente sabe?

Você realmente entende?

Você se indigna por empatia — ou por ego?

Você é povo — ou apenas público?

Porque o povo luta.

O público assiste.

E o país que apenas assiste, morre de dentro para fora.

Lima Barreto não escreveu para o passado. Escreveu para o hoje.

Sua crítica é o espelho de um tempo em que a razão adormeceu e a ética virou ruído.

A luta pela consciência não envelhece.

O Brasil só deixará de ter público e passará a ter povo

quando o conhecimento voltar a valer mais que o poder;

quando a vida — toda vida — voltar a valer mais que a política;

e quando a terra deixar de ser apenas riqueza e voltar a ser raiz.

Porque entre o olhar triste e lúcido de Lima Barreto

e uma xícara de café sobre flores e frases,

há o abismo entre humanidade e aparência.

E é nesse abismo que nascem as perguntas que ainda podem nos salvar.

Você realmente sabe?

Porque, se ainda restar dúvida, ainda há esperança.

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