O VENTO QUE AINDA NOS MERECE


Vento maldito…
Sopra onde não te querem.
Sopra sobre as certezas de ontem,
sobre o conforto que mente,
sobre a fé que divide,
sobre a moral que finge justiça.

Sopra sobre o preconceito vestido de respeito,
sobre o ódio disfarçado de doutrina,
sobre a piedade que condena,
sobre o silêncio que protege o privilégio.

Evangélicos não caminham com umbandistas.
A patroa não almoça com a empregada.
Há elevador de serviço — para os que servem.
E céu exclusivo — para os que mandam.

Chamam de ordem — a desigualdade.
De mérito — a herança.
De progresso — o retrocesso social.

Quem prepara o alimento, não come.
Quem limpa, não aparece.
Quem constrói, não habita.
Quem ensina, não é ouvido.
Quem planta, não colhe.

Mas o vento sopra.
E ao soprar — revela a engrenagem.

A cidade varre as praças,
mas proíbe árvores frutíferas.

O fruto é mercadoria,
a fome é paisagem,
a sombra é luxo.

O vento atravessa os corredores da economia:
a saúde virou investimento,
a dor, ativo financeiro,
a cura, contrato de risco.

A dignidade — tornou-se favor concedido.
A consciência — moeda de troca.

O cabresto vem polido,
encilhado a contento,
agora digital, com senha e crachá,
com sorrisos de obediência
e elogios pagos em PIX.

O vento sopra sobre os prédios que vendem o sol,
e os condomínios que cercam o horizonte.

Refuta a especulação do solo e da alma,
da água, da cultura, da esperança.

Refuta o lucro que seca rios.
O concreto que sufoca árvores.
A lógica que privatiza o direito de respirar.

O vento sopra sobre o racismo travestido de piada,
sobre o capacitismo disfarçado de cuidado,
sobre o sectarismo que chama de comunhão o isolamento.

Sopra sobre a religião que mede fé por patrimônio,
e sobre o poder que prega paz com armas.

Nenhuma igreja deve possuir o amor.
Nenhum corpo deve pedir licença para existir.
Nenhuma vida precisa justificar-se para viver.

O vento sopra e arranca o verniz da decência.
Mostra que o fim do racismo, do sectarismo e do capacitismo
é o início da civilização.

Que a igualdade não é utopia —
é urgência.

O vento sopra sobre as terras loteadas,
sobre os rios vendidos,
sobre os frutos arrancados antes do tempo.

Sopra contra o mercado que chama destruição de “empreendimento”.
Sopra por um pomar público,
por uma praça das frutas,
por uma horta aberta,
por cidades com raízes — não muros.

Que o meio ambiente volte a ser
meio de vida,
não vitrine, não decreto,
não fotografia de inauguração.

Que o amor à Terra valha mais
que a assinatura de um edital.

E quando o tornado vier,
que não reste apenas o luto,
mas reste gente.

Gente que não aparece na manchete,
mas carrega telha, oferece pão,
abraça, escuta, reergue,
sem pedir nome.

Os desconhecidos.
Os forasteiros.
Os distantes.
Os anônimos.

Aqueles que nunca surgiram,
e talvez nunca surjam,
mas estão — servindo, compartilhando, doando,
reconstruindo o que o vento levou.

O vento sopra,
e eles sopram de volta —
com o fôlego do amor.

A ministra fala:

“Em pedagogia da dor.”

Então, por amor —
façamos ontem o hoje e o amanhã.

Por amor, tratemos a saúde como direito,
a dignidade como fundamento,
a vida como bem comum,
a política como serviço,
a fé como encontro,
a Terra como mãe.

Por amor, refutemos o preconceito,
a exploração,
a especulação que transforma o mundo em balcão.

Por amor, desencilhemos o cabresto,
derrubemos o altar do privilégio,
plantemos o pomar da partilha.

E que o vento —
este vento maldito —
leve o nosso luto
e devolva semente.

Há os mais católicos que outros.
Há os mais ateus.
Há os falsos religiosos em todas as denominações.
Há do bom e do malvado.
Há do ingênuo e há do esperto.
Há também — aquele que prega —
aquele que vive.

E é por esses — os que vivem,
os que insistem,
os que reconstroem —
que o vento sopra
e a esperança germina.

Sobrevivemos a uma pandemia…
E ainda há quem diga: “não aprendemos.”

Talvez não tenhamos aprendido a tempo.
Mas enquanto houver quem plante,
quem abrace,
quem partilhe,
há lição possível —
porque há vida.

Em memória de
José Neri Geremias,
José Gieteski,
Adriane Maria de Moura,
Claudino Paulino Risse,
Jurandir Nogueira Ferreira
e Júlia Kwapis —

vidas arrancadas pelo tornado de Rio Bonito do Iguaçu,
mas semeadas na terra da esperança.

E em tributo aos desconhecidos, forasteiros, distantes e anônimos,
que, sem esperar aplauso,
erguem o que foi destruído,
alimentam o que tem fome,
curam o que ficou ferido,
e mantêm viva a parte invisível da humanidade.

Que cada árvore plantada em sua homenagem
seja o contrário do vento:
raízes firmes,
frutos livres,
sombra — para todos.


Jairo Varella Bianeck
Pela Terra, pela Vida e pelo Amor
Rio Bonito do Iguaçu, 2025

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